Bolhas de Sabão
"Meus desejos surgem como bolhas de sabão nas mãos de uma criança..." (BC)
segunda-feira, 21 de maio de 2012
Passo
Danado esse jeito que o tempo tem de passar.
Teima em passar.
E em acabar com o nosso tempo.
Naquela noite o passo lento do tempo pisou leve, pisou manso.
Nesta, pesa o passo que se arrasta.
Que teima em me levar.
Na nossa noite, o universo inteiro conspirou à nosso favor.
Hoje, a lua é outra.
O riso, a lágrima, a rosa, o espinho.
Deixo...
Tudo o que tinha tom sépia, ficou.
Como haveria de passar?
Cicatriza, esse tempo.
Deixa...
Naquela noite o universo inteiro conspirou à nosso favor.
Nesta, longe de estar inteira...
Há de prevalecer ainda poder respirar.
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sábado, 5 de maio de 2012
Sobre o que não sei respirar.
É engraçado...
E a gente começa assim, ou termina, frases onde a gente não prevê o futuro nem onde vai chegar vígula ou ponto final.
É cheia de tiros no escuro, essa vida. A gente vive de arriscar o tempo inteiro. Se não apostar, nunca vou ganhar. Se não comer, nunca vou saber se gosto. Se não amar, não vou sofrer e nem saber de tudo que isso me ensinaria. Se não tentar de novo, nunca vou saber se pode dar certo.
E a vida segue assim. Quase nunca precisa fazer sentido. Uma sequencia de fotos, uma trilha sonora e garrafas de café pra sustentar as noites nos olhos pesados. A vida é pesada, é leve, é brincadeira, é passarinho. É muito amor. Vai do suspiro à dor.
A gente joga bola na rua e se apaixona. Senta do lado de um menino bagunçado, no ônibus, e se apaixona. Vai sozinho numa sorveteria e se apaixona. Volta pra casa, acompanhado, porque está apaixonado. Bate a porta e não fica ninguém do lado de fora. A gente se apaixona demais e esse é o gás hélio da vida. É bonito.
É engraçado. E a gente diz isso, também, quando sabe o que dizer. É engraçado como a gente estuda, trabalha, abraça, almoça e dorme, planta uma árvore e ainda tem tempo pra amar. Amor consome, desgasta, aperta e vive. E amor acaba. Nunca tive medo dele por isso. Acabar é uma palavra forte e por isso prefiro adormecer. É uma questão de poesia, mas eu tenho os asas no chão.
Desculpe falar tanto em nós, mas tenho medo de falar sozinha e me perder. É que todas as noites eu penso no quanto essa vida tão amor quis me endurecer. Eu não deixei, mas eu não quero mais ser mole, não. Estou cada vez mais contraditória. Uma frase tem ecoado na minha cabeça. Algo como um espelho me dizia que “as coisas têm acontecido tão rápido que não dá tempo eternizá-las.” Eu, acredito no “eterno enquanto durar”. Eu quero viver de momentos. Longos, curtos, de vida inteira. Eu procuro intensidade. Como vou me entender e explicar pra alguém? As pessoas me enchem de perguntas..
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Eu não sei. Normalmente baixo a linha do horizonte, fito minhas mãos se cruzando e as bochechas virando flor e digo que não sei. Quase nunca precisa fazer sentido. Sempre gostei de sms na madrugada e ligações na divisa da noite e do dia. Gosto das pessoas que me fazem bem, dos momentos que me fazem esquecer e de quando sorrio quando alguém vai embora com a deixa de voltar. Prometi pra mim que não ia esperar a volta. Descobri que não consigo. Ficar na superfície não é comigo. Mergulho. Encho os pulmões com todo o ar que puder e mergulho. Mas definitivamente não sei nadar.
Na madrugada ninguém ligou. A luz que ilumina o quarto inteiro acendeu por conta própria. Liguei. Caixa de mensagens. Por falta de coragem, fui até o fim: Me desculpa, você. E que me desculpem, também, os cadeados, as trancas, as portas e as janelas fechadas. Eu nasci pra passarinho. Sempre gostei de laços, mas vou cuidar dos que carrego no pulso e no cabelo. Primeiro eu.
E levantei pra buscar mais um pouco de ar...
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terça-feira, 1 de maio de 2012
Tão só...
Caminha sozinha
Quando penso em sua solidão, mais foco na sua distância.
Se dizer eu não sei, escrevo:
Ela brilha sozinha e que ninguém a ouse tocar!
Os poetas, loucos, tentam
Eu sinto, mas não vão conseguir.
Um véu a cobre imaculada
Calada, intocável, escura e brilhante.
Quanta beleza há nisso?
Quanto mistério me leva contigo?
Talvez o do mundo inteiro...
Intocável berço da lua,
Bailarino manto de estrelas,
Imenso chão.
Ousaria te tocar não fossem tamanhas semelhanças, menino.
A noite inteira, só.
Ele, sozinho por inteiro.
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quarta-feira, 18 de abril de 2012
"Não acomodar com o que incomoda."
Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.
A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.
A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.
A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.
A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagará mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.
A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.
A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável.
A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.
A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.
Texto: Marina Colasanti
Interpretação: Antônio Abujamra
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Falam por mim...,
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domingo, 8 de abril de 2012
Nossa paz
Os nossos passos que se cruzam
Por tantos caminhos diferentes
Bifurcações repentinas
Surpreendem, embarram na gente.
Onde foi parar nossa paz, menino?
Esperei os ponteiros decidirem seu tempo
Desejei que estivesses procurando comigo
Mais perto, no abraço, nos olhos, no vento.
Pulamos janelas, trancamos a porta
Fugimos, no escuro, pra longe daqui
No alto da cidade procuro a verdade
Com o vazio espaço guardado pra ti.
Cadê teu sorriso, menino bonito?
Teu cacho amarrado precisa de ar
Amarre o cadarço, não quero teu choro
Me dê sua mão e vamos procurar.
Te faço um carinho, te conto meu sonho
Tua poesia eu vou escrever
A gente distrai nossos traços e linhas
Eu vou pra mais longe se for com você.
Não precisa sair, continue deitado
Fale baixinho, pode cochilar
Cantarolo pra ti a canção que quiser
Te chamo, te acordo quando a lua chegar.
Mostrando que a paz costuma esconder
Os nossos sorrisos num outro lugar
Que ela, faceira, acaba voltando
Pro canto tranquilo em que a gente ficar.
Então fique, menino, por perto de mim
Em silêncio, no colo, como preferir
Só não se esqueça de carregar nossas deixas
E pegar minha mão bem na hora de ir.
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sexta-feira, 6 de abril de 2012
Sobre uma menina e ela mesma.
"Ana é uma boa moça. Tem sonhos altos e quer mudar o mundo, persegue o degrau acima, e trabalha com prazer naquilo que acredita. Ama a Deus, e a família, gosta de arte, futebol e política. Escuta músicas que trilham seus sentimentos e lê livros em que pode se reconhecer em algum personagem. Ana olha a lua de sua janela, relembra sua infância de cinema, e come chocolate no fim de dias difíceis.
Ana é jovem, mas também é velha. Às vezes penso que já nasceu madura, e se não fosse sua pouca altura teria que mostrar mais vezes a identidade para acreditarem que ela também ainda é uma garotinha. Ana sentava no fundão da sala de aula, e tinha os boletins recheados de notas com dois dígitos. Era popular e nerd numa mistura de personalidades que classificavam em extinção.
Ana é um livro aberto, com capa dura, risada gostosa e cheiro de comida caseira, mas ela também é baú antigo debaixo da cama com cadeado pesado e frio. Brinca de saltitar entre esses dois mundos que apaixonam e confundem os que ela traz pra perto. É uma boa amiga pra muitos, e tem poucos bons amigos pra si. Não porque esteja cercada de pessoas ruins, porque ela parece escolher a dedo o melhor do que vê... Mas é que é preciso uma habilidade rara para conseguir decifrar os jogos de Ana.
Ana que diz não quando quer dizer sim e sorri pra levantar a maçã do rosto e impedir que um pingo role.
Ana também ama palavras. As fala bonito em meio ao seu raciocínio rápido. Uma dose de criatividade e três de teimosia: Justifica, argumenta, questiona, convence. Mas é no cair da noite que seu silêncio chega. E ela escreve. Quase sempre sobre Amor. Deve ser porque é essa a pauta que sempre a emudece. Então ela deixa o grafite sobre o velho caderno da escrivaninha encarregado de falar o que não consegue dizer.
É que Ana tem esse jeito intenso, e aprendeu que tem que ser tudo, tanto, sempre. Amor e gente assim só combinam no mundo de Platão. Ana descobriu que não sabe saltitar nas órbitas do coração e isso desencantou a brincadeira. Agora, Ana corre por estes labirintos da vida fugindo de borboletas no estômago, de beijos doces com pés no ar, de abraços que dissolvem o cotidiano, da ligação esperada durante o dia, da mensagem inesperada na madrugada, dos planos, das memórias, das sombras. Ana foge enquanto eu insisto em convencê-la de que o melhor medo da montanha russa é o que se sente dentro dela, de braços erguidos, olhos abertos, coração na boca e garganta afinada. Relembrá-lo é melhor do que amargurar a desistência na fila, com medo de ao menos experimentar novos loopings sem cair. Fico perto de convencer Ana, que metida a corajosa se sente afrontada com minha persuasão. Vai Ana, caminha, nem sempre se pode saltitar, mas é caminhando que se chega a algum lugar. Ana sorri, mas eu conheço seus jogos e ela foge, enquanto a observo pensativa do outro lado do espelho."
[Juh..., do blog [Pedaços]]
No texto original, Ana se chama Maria. Mas é que Maria parece tanto, tanto com uma Ana que eu conheci...
segunda-feira, 2 de abril de 2012
domingo, 1 de abril de 2012
Desca(n)so
Ando cansado desse pranto
Tão cansado desse pão-com-manteiga molhado
Desse café que finda salgado.
Ando cansado desse frio
Sem ereção dos pelos corpo inteiro
Tão cansado do calor sem regresso que nunca mais deixou
Aqueles olhos voltarem a ser como antes.
Ando tão cansado de sentir o mundo inteiro nas costas
E no final do dia um formigueiro do joelho pra baixo e só.
Ando parando de sentir
Paro no meio, não vou mentir
O medo, a valsa, a briga
Finjo a dor e todo sorriso.
É que essa vida e nada
Nem nesses, noutros olhos
Tem me emocionado.
Anda cansada, minha emoção
De tanto chorar...
E não estar em mim.
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domingo, 25 de março de 2012
Ver_sozinho #2
Pode vir devagarinho
Pisando lese, de mansinho
Com calmo amor, mas com carinho
Deixando a dor pelo caminho
Querendo a paz de passarinho
Tão grande e leve, meninozinho
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Pisando lese, de mansinho
Com calmo amor, mas com carinho
Deixando a dor pelo caminho
Querendo a paz de passarinho
Tão grande e leve, meninozinho
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