sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

A fé em nós.


Com licença, eu posso entrar? Eu sei que a casa também é minha, mas já tem tanto de nós que nem me sinto mais à vontade pra chegar assim sem avisar, sem marcar hora, sem ao menos um prefácio. Não é fácil.
Eu só vim buscar umas coisas, não pretendo me demorar. É só o tempo de tomar um café, de separar as xícaras, os discos, os livros. A secretária eletrônica transmite os recados em vozes familiares. Substantivos, verbos, sujeitos e predicados. Orações mal formuladas. Sinto falta do nosso silêncio à dois. Sinto falta dos adjetivos nas mensagens que ouço. Afinal, onde termina a música e onde começa a história?
Afetos arquivados em pastas de computador. Deixarei um lembrete da próxima vez: "salvar nossa fé em disquete".
Eu sei que a culpa também é minha , mas ela já tem tanto de nós que nem sinto vontade de partir assim sem avisar, sem marcar hora, sem ao menos um prefácio. Não é fácil. Com licença, eu posso ficar?


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Maíra Viana / baseado em "A fé solúvel", O teatro mágico.

4 comentários:

Brenda, Mel, alguém, ninguém. disse...

Gostei do texto.
"Com licença, eu posso ficar?"

Mauro Filho disse...

adooorei garoteeenha!

me amarrei nesse livro, me empresta depois, viu?

;*

Anônimo disse...

Arrepiou-me.
Sem mais, fico por aqui mesmo sem licença...
C.A.

Anônimo disse...

Adorei, adorei! «Sinto falta do nosso silêncio à dois», fantastico :) *