O ambiente era tranquilo. Deslisava ao fundo o que me pareceu ser a trilha sonora d’O fabuloso destino de Amélie Poulain. As paredes tinham um tom de céu devagarinho e havia borboletas por todos os lados. Muitas borboletas... de todas as cores. Mas parecia que só eu estava sentindo isso.
__ Fique à vontade, ok?
Sorri como se dissesse um “sim”. Fiquei descalça e soltei os cabelos. Por um instante quis fechar os olhos, mas pelo ritmo que tenho levado minhas noites, provavelmente acabaria adormecendo.
__ Você está bem?
__ Estou.
(Aqui, ela fez aquela cara de “ah, vai... pode falar a verdade!”)
__ Sim, eu estou bem, acredite.
__ Huuum...
(Ela já deve estar achando que sou, no mínimo, estranha.)
__ Então... o que você fez hoje?
__ Fui dormir cedo da manhã e acordei tarde. Passei alguns minutos bagunçando a cama, tomei 3 xícaras de café, liguei a TV mas não parei pra ver o que tava passando, coloquei água no girassol da minha janela, liguei pra uma amiga. (...) Lavei meus chinelos, ouvi músicas e li um pouco.
__ E você faz isso todos os dias?
__ Quando estou de férias, sim. Exceto regar meu girassol. Eu sei que deveria ser mais cuidadosa com ele. Eu sou muito desligada...
__ Como?
__ É que me distraio fácil. Pareço ir pra outra dimensão em segundos e não sei mais como voltar, entende?
__ Sei...
(acho mesmo que ela quis me dizer que isso pode se tornar um sério problema)
... Com que frequência você se sente assim?
(acho mesmo que ela quis me dizer que isso pode se tornar um sério problema)
... Com que frequência você se sente assim?
__ Assim como?
__ Assim... como você se sentiu ao decidir me procurar.
__ É... algumas vezes por dia. É pouco...
__ Todos os dias?
__ Sim!
__ É muito!
__ E você sabe o que é?
__ Espero que você me diga...
__ ...
__ Então?
__ É que... eu quero um amor.
Não, não tentarei descrever o silêncio que fez aquela sala pesar com o olhar sério que ela lançou fazendo com que as borboletas rodopiassem devagar, quase parando.
__ Pois bem...
(Ela tomou um copo d’água e eu engoli à seco)
__ Me fale algo sobre você.
(...)
__ Bom... tenho 23 anos, moro com meus pais e com meu gato persa chamado Nick. Faço faculdade de Jornalismo na federal do...
__ Não!
__ Não o que... ?
__ Seja espontânea. Fale o que você quer falar, não o que pensa que quero ouvir. Vamos lá, fale...
Foram os segundos mais longos daquele dia... esses que levei pra conseguir respirar fundo e acomodar as costas.
__ Sou muito tímida, mas espontânea muitas vezes. Sou simples. Gosto de vestidos, flores e de caminhar de mãos dadas. Não gosto de arrumar a cama quando levanto e nem de dormir em cama desarrumada. Sou viciada em café com leite de rosas, graveola, sorvete de pavê e chocolate amargo. Sou muito exagerada e isso às vezes me assusta e assusta as pessoas, eu sei.
(Posso garantir que ela também se assustou)
__ Gosto de caminhar, ver o dia nascendo e morrendo, tomar coca-cola direto da garrafa e mantenho sempre minha geladeira arrumada. Passo o dia inteiro de pijama e detesto encontrar a tampa da privada aberta. Gosto de fotografar e de observar as pessoas. Sou bagunceira e exigente. Me sinto bem ao ver as pessoas que eu gosto sorrindo... e as que nem ao menos conheço, também. Quase nunca uso maquiagem e adoro usar chinelos. Choro demais, sou romântica e mais pareço uma manteiga derretida. Escuto músicas e choro. Vejo um filme e choro. Se pousa uma borboleta no meu ombro, também.
Não, definitivamente não sei descrever as expressões de inquietação que estavam se formando naquela face tensa e que parecia dizer com os olhos que eu precisava tomar jeito.
__ Mas eu gosto de rir, também, não se preocupe. Gargalhar alto, rir com o corpo todo, sorrir de olhos fechados. Acho engraçado como falo essas coisas. Parece que estou sempre escrevendo uma poesia sem rimas quando começo a falar sobre mim. É estranho e engraçado. Ah, às vezes eu me pego falando sozinha e...
__ Acho que é o suficiente.
__ Ah... Desculpe...
__ Você tem 23 anos, é muito bonita, tem um corpo de dar inveja a qualquer menininha mais nova que você, tem olhos provocantes e está me dizendo que corre atrás de um pote de ouro no fim do arco-íris?
__ Não. Não é bem assim...
__ Claro que é. Como você quer encontrar um amor se está presa à menina que você foi e parece não querer deixar de ser? Como encontrar um amor, um amor maduro, se age como se estivesse brincando?
__ Eu...
__ Vamos lá, vamos tentar. Mulher! Você me entende. Me fale da mulher que você é.
__ Não entendo porque essa necessidade de ousadia, de corpo , de adultice, de...
__ Vamos lá. Tente me dizer algo.
Que droga! Mal se passaram 20 minutos e ela parecia me conhecer muito bem e me descobrir olhando nos olhos. Ela sabia da menina que sou, mas também...
__ Eu gosto de beijos demorados e molhados. Nos olhos, nas mãos e beijos no colo me aceleram a respiração. Abraços apertados de tirar os pés do chão e mãos que deslizam da nuca até perder a razão. Gosto de pulso firme em volta da cintura e que me façam sentir segura. Me encanta perder-se no corpo e encontrar-se no outro. Mas... mas é que isso realmente não me parece ser tudo. Não me parece ter o menor sentido se não houver um amor.
Retifico-me aqui. Os minutos seguintes é que foram os mais longos de uma grande porção dos meus últimos dias vividos. O ambiente pareceu aliviar, mas aquela mulher, não.
__ Mais uma que esse amor, sem ao menos ter chegado, enlouqueceu.
(Não era bem assim que eu via as coisas...)
__ Então você se preocupa com geladeira, lençóis de cama e girassóis na janela, gosta de doces e tem um aspecto infantil opostamente ligado a um desejo "adulto", como você disse, tão ardente quanto pueril, dominando muito bem cada papel, confundindo quem você é e o que você quer...
__ Eu só quero um amor!
__ E o que você pensa que é amor?
(...)
Eu já estava fechando os olhos pra tentar responder quando toca uma campainha.
Dois ou três segundos eu já estava de pé, indo na direção da porta, como se tivesse acabado de despertar de um sonho estranho.
Voltei sorrindo.
__ Era o entregador de jornal.
Meu sorriso ficou um pouco maior.
__ E...
__ E eu gosto desse sorriso de bom dia que ele tem.
Sim. Mais alguma eternidade de segundos apareceu aqui, mas essa eu logo interrompi.
__ Onde paramos?
__ Não adianta... deixa pra lá.
__ ???
__ Quer um café?
E que fique claro que só aceitei o café por dois motivos: 1. Por vício e 2. Por ter a certeza de que não adiantava mais, mesmo... Desde o começo eu sabia que ela não entendia nada de AMOR.
__
__
5 comentários:
Gata, passei só para add o blog como seguidora. RT no twitter. Depois volto p ler. Agora tentando concluir o estudo de uns slides. Tenho prova do MinC/FGV na sexta. Beijo!
Linda, digo com toda a segurança do muuuundo gigante que esse, se não for o melhor, mas está entre os três melhores textos seus. Muuuito bom, mesmo!!! Adorei a parte em que você fala dela (mulher). Sobre seus desejos, sobre como ela se vê. Na verdade, acho que me vi um pouco nessa relação mulher/menina. Não quero que você perca jamais o seu jeito de menina, porque é um parte mágica que existe em você. Quanto ao desabrochar do seu lado mulher, esse é com o tempo. E vai ser lindo. E, com certeza, é com esses dois aspectos que você vai encontrar seu AMOR. Ah, lembrei também de Tulipa Ruiz, enquanto lia.
"Descobre o peito. Pinta a boca e beija o espelho, que reflete a silhueta que você acabou de descobrir".
TE AMO, Paçalhinha!! Saudades! Beijo grande de abraço longo.
Haa se eu te pego Dona Menina.. kkkkkk
- NEM SEI O QUE ACONTECE COMIGO QUE QUANDO EU PASSO POR AQUI EU ME VEJO NAS SUAS LINHAS E ENTRELINHAS.
Hhaha, haa se eu te pego!
Meu besourinhoo, vc ta ficando cada vez melhor, isto q vc escreveu está de perfeito acima.
bju te amo
;D
Muito bom!!!
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